Sentado na bicicleta, os dois pés no chão, o rapaz conversa a ternura de palavras doces para a rapariga imobilizada pela emoção de o ouvir. Estão no portão do pequeno muro que delimita a casa que os pais dela construíram na terra herdada pelos avós; falam os dois, baixinho, quase escondidos pelas árvores pequenas que, do lado de dentro, acompanham o muro. A pele escurecida de ambos atrai-os um ao outro, o brilho dos olhos dela, a inocência do seu cabelo solto sobre os ombros e a ligeireza das suas roupas; ele, de calções caídos na cintura até ao joelho, o cabelo picado de gel, e a camisola preta de cavas que realça e melhora o corpo do seu trabalho na empresa de pequenas construções do pai. Nada mais acontece naquele momento senão as palavras que pouco importam diante dos sentimentos que se trocam; nem os vizinhos a disfarçarem mal que os estão a ver, nem os carros estupidamente excessivos dos emigrantes, nem o sol doentio do Verão. Importa-lhes apenas estarem juntos, todas essas preocupações só haveriam se o desejo não as superasse. Continuam a conversa da noite anterior, começada quase inesperadamente por entre a multidão que dançava e acompanhava a banda regional nos festejos da padroeira local. Embora vivessem perto um do outro, nunca houvera um impulso para estarem juntos; e nessa noite, enquanto as famílias de ambos se divertiam na reunião dos parentes que vieram do estrangeiro, e se copiavam grosseiramente êxitos musicais de outras décadas, eles encontraram-se a meio caminho entre o balcão das bebidas e o carro das pipocas: e um despertar ígneo se apossou do peito dele, do estômago dela, que os obriga a estarem juntos hoje. A paixão que os atrai durará os primeiros anos da sua relação; depois estarão juntos mais alguns anos por comodismo e habituação, até porque as suas famílias os obrigam; trair-se-ão mutuamente na busca de sensações novas; ela acabará por engravidar, e o casamento virá compulsivo. A filha deles, no portão da casa, estará, numa tarde quente de Agosto, a sorrir de prazer para um jovem a quem ela agrade.
terça-feira, 16 de agosto de 2011
domingo, 14 de agosto de 2011
O Poeta
Os hymnos tão suaves, tão cheios d'uncção, tão intimos, que os psalmistas das cathedraes de Hespanha repetiam com enthusiasmo, eram como o respirar tranquillo do somno da madrugada que vem depois do arquejar violento, do gemer doloroso de pesadello nocturno.
Alexandre Herculano, Eurico, o presbytero (1847), pp. 18
É um estado de convalescença. Há uma guerra dentro de mim, como se fosse a cura de uma doença, mas não daquelas de que os médicos se dizem especialistas. Esta doença não tem cura porque não é uma doença. Estou na sua convalescença, mas sei que voltará, sei que em breve estarei de novo sob o efeito da sua febre, com os delírios próprios desse estado doentio. Imaginar-me-ei igual aos outros, e julgarei que sou possível como alguém, iludir-me-ei com a fantasia de um futuro vulgar, ao lado de alguém que me ame com o amor com que as pessoas normalizadas se costumam amar. Mas depois tenho de tratar novamente dessa doença, amainá-la, reduzi-la para não se alastrar a níveis que ponham em risco o que de mim há ainda são. Sei que dentro de pouco tempo haverá outro rosto, que o parasita que habita em mim (e que sou eu próprio) acordará outra vez, e será necessário aplicar-lhe novo tratamento para a guardar até à vez seguinte. Estou em convalescença de ti.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Extasis
E é pois assim absorto, delirante,
Que eu vejo alguem, imagem vaporosa,
- Cabellos negros, faces côr de rosa -
Passar como uma sombra vacillante.
É pois assim, assim é que eu a vejo,
É assim que eu lhe quero e que eu a adoro;
E sei então que vivo porque choro
Beijando a sombra, que mais nada beijo!
João Maria de Santiago-Prezado, Primeiros versos (1902)
Um beijo
Estaria eu apaixonado por Miss Ellen? Mas Miss Ellen não tinha metade da minha idade, Miss Ellen era uma criança ainda! Procurei dominar-me, analizar-me, compreender-me, - e tive, então, pavor de mim mesmo. Não. Não havia dúvida. A velhice chegára, com o mais terrivel dos seus sintomas. O que me perturbava em Miss Ellen não era a beleza, era a mocidade; não era a mulher, era a criança. Eu tinha tantas vezes observado nos outros essa primeira manifestação de decadência, que não me foi difícil surpreendê-la em mim próprio. A predilecção amorosa pelas raparigas muito novas, essa «voluptuosidade da candura», que marca no homem o princípio da velhice, aparecera em mim, súbitamente, doentiamente, com o prometido beijo de Miss Ellen.
Júlio Dantas, Ao ouvido de Mme. X (1915)
A Fonte do Amor
Cheguei a velhinho, ainda lá bebia...
Outros chegavam p'ra beber;
E eu, sempre a beber também, dizia:
É mentira! é mentira! Esta agoa faz soffrer!
Afonso Lopes Vieira, Para quê? (1897)
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Ela era de uma beleza sem igual, marcada é certo por acontecimentos menos positivos da vida humana, mas ainda assim superior à de qualquer mulher que vivesse na sociedade mesquinha e preconceituosa, fingidamente progredida. Disse-me que até teria gostado de mim, se eu tivesse cuidado da minha aparência. Não: eu já tive cuidado com a minha aparência, e nessa altura as mulheres como ela não se interessavam por mim porque havia quem tivesse uma aparência melhor que a minha. A minha riqueza não está, nunca esteve na beleza transitória do corpo mortal: mas no caminho superior de que esta vida é apenas um passo. Perguntei-lhe que beleza era a dela. A do corpo? E quando o corpo já não for como é agora, com o que ela se irá identificar? De que se irá orgulhar, do passado? Ela olhou para mim num desdém de quem está acima de alguém banal como eu, e refugiou-se na cúpula da sua ilusão.
domingo, 10 de julho de 2011
"O decurso de trinta a quarenta annos, no turbilhão, cada vez mais rapido, em que hoje as idéas passam, modificando-se, transformando-se, é um periodo que corresponde a seculos nos tempos em que o progresso humano era sem comparação mais lento. As doutrinas, as apreciações criticas, os systemas, os livros quasi que envelhecem tão depressa como o homem. O pensamento que ha vinte annos parecia uma verdade nova póde hoje parecer apenas um problema não resolvido, e até um erro condemnado; a observação profunda de então ser hoje trivialidade; a critica subtil, que levou um raio de luz a certos recessos obscuros dos factos, achar-se incorporada e transfigurada em apreciação mais complexa que illumine dilatados horisontes."
Alexandre Herculano Opúsculos. Vol I (1873), pp.XIII-XIV
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Caminhando sem destino até chegarem ao destino que os espera, sempre os três: ele, acompanhado do seu filho, e o animal de estimação, o corpo.
domingo, 3 de julho de 2011
As coisas aconteceram todas. Algumas das que eu quis, algumas das que não quis, muitas das que nunca esperei. Aconteceu tudo; resta apenas que chegue a mão ossada que risque a última página e feche o livro (a última página é dela, porque a fui gastando ao longo das outras todas).
Falas comigo como se eu fosse o homem de vinte e tal anos que a barba cortada aparenta; mas dentro de mim há o ocaso de uma humanidade inteira que soçobra ante o nascimento de um novo mundo.
Achas que devo começar a gostar dela? Estavas na disposição de ser filho dela?
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Uma pessoa que conhecemos e que nos venha falar acerca de uma outra que não conhecemos: devemos acreditar acriticamente no que a primeira nos diz sobre a terceira? Usamos este exemplo a propósito de "O pensamento português contemporâneo. 1890-2010" de Miguel Real. O livro, tal como a sua primeira parte, a "Introdução à cultura portuguesa", só vale por, numa tendência pouco levada a sério na intelectualidade portuguesa, reunir nomes que de outro modo nunca apareceriam juntos; mas tudo o que intermedeie o cabeçalho que introduz um autor até ao do outro autor - é a opinião do autor do livro. A opinião do leitor deve ser feita, como defende Eudoro de Sousa (que Miguel Real conhece mas a quem não quer dar importância...), a partir da leitura directa dos originais. O autor de um livro explica-se a si mesmo no seu livro, e cada leitor explica-se na leitura que faz do livro. Porque um livro que não seja literário não deixa de ser arte.
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Inesperado, o fenómeno natural apareceu e arrasou o pouco que havia; tempos se passaram até que alguns curiosos voltassem àquela terra maldita e começassem a procurar pelo que ficara jazente sob a massa petrificada e adormecida de destruição. E os antigos edifícios, um pouco mais desfeitos do que estavam, voltaram à luz.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
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