domingo, 30 de outubro de 2011

Consumismo


Um dos criterios que mais distinguem o que hoje se chama civilisação, é a multiplicidade e a vulgarisação das necessidades facticias, ou a transformação d'ellas em necessidades verdadeiras; e pode dizer-se que a civilisação moderna está na razão directa d'aquella multiplicidade e vulgarisação, ou d'aquella transformação; e por consequencia, que uma nação é tanto mais civilisada, quanto maior é o numero de taes necessidades, a que mais geralmente satisfaz.

 do Discurso preliminar pelo Ajudante de Ordens de António de Saldanha da Gama, Memoria sobre as colonias de Portugal (1839), pp. 11

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

História da Filosofia


145. Como é que tantos filósofos antigos e modernos discutiram, durante tanto tempo, sobre a ciência psicológica, sem terem chegado à verdade?

"Esses homens foram os precursores da eterna Doutrina Espírita; eles prepararam os caminhos. Eram homens, logo puderam enganar-se, porque tomaram as suas próprias ideias pela luz; porém, os seus próprios erros servem para fazer realçar a verdade, mostrando os prós e os contras. Aliás, entre estes erros encontram-se grandes verdades que um estudo comparativo vos faz compreender."

Allan Kardec, Livro dos Espíritos

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Geração



Os teus olhos brilham, como de todas as vezes que falavas nele. Reparo no teu corpo estremecendo ao lado do dele, e apenas dizes monossílabos esporádicos, queres escutar-lhe tudo o que puderes, olhá-lo o mais possível, estar junto dele para sempre. Compreendo-te bem, filha; também já amei assim. Fico muito contente por encontrares quem te faça sentir tão feliz, e não esteja contigo apenas para se servir um bocado de algumas partes de ti. Um pouco mais afastada, a tua mãe nota a minha distância, pergunta-me o que tenho; e, por me veres assim, a tristeza do teu olhar julga que eu não o aprovo. Filha, lembras-te das coisas que, ao jantar, costumas contar sobre ele?, sobre vocês?, sobre o que ele te diz e faz por ti? E qual é a minha reacção, lembras-te? Não, não tenho dúvidas de que, dentro da vacuidade moral que se espraia pelo mundo, ele não é como os outros: sem ter dado conta, conseguiu ultrapassar o meu enigma esfíngico sobre o que és para ele, com toda a sinceridade nos olhos estranhos (e não podia ser de outra forma...). Não, pequenina; não quero que sofras a desilusão desse amor que sentes tão grande. Tempos houve que passei por aí e não quero que percas todas as oportunidades de seres feliz; já basta o resto. Essa alegria que ilumina, em fogo de artifício, a noite das tuas dificuldades – era certamente assim que eu acordava quando amei como tu, nessa primeira vez, após tantas outras, em que descobri de novo o meu coração. Éramos tudo menos crianças, mas ao lado dela eu voltava à minha infância, ao tempo do lazer interminável e despreocupado. Ouvir-lhe a voz, cruzar-lhe o olhar, transbordar o meu pensamento com o seu rosto imaculado e divertido – era melhor que qualquer êxtase artificial e solitário. Todo o meu ser caía para ela; mesmo que eu reparasse nos riscos a que me expunha, o corpo, absorvido em desejo, não me ouvia e, contra as minhas ilusões de controlo, vivia apenas para estar com ela, para ser um só com ela. Mas tive de perceber que estava a olhar para o outro lado de um fosso intransponível; e a verdadeira dor apareceu quando o fosso nos afastou ainda mais, porque dentro do ventre dela algo de muito belo acontecia. Filha querida, tive então de suportar uma longa travessia no deserto, onde havia abundância mas que, ao toque das minhas mãos sedentas, tudo se tornava areia áspera e dolorosa. Fui, por fim, abençoado com o amor da tua mãe, e com a tua presença entre nós; o que sofri não o desejo a ninguém, muito menos a vocês duas, que tanto amo acima de tudo o que existe. Não, filha, não foi por causa do rapaz que me levantei e vim até à janela; foi por tê-lo ouvido dizer o nome da mãe dele.

domingo, 21 de agosto de 2011

A Poesia do Soffrimento


Minha alma robusteceu-se nas lides do pensamento; tornou-se de marmore; e agora, vigorosa e forte, não ha paixões que lhe imprimam um vestigio, espinhos que lhe façam verter uma gotta de sangue...

Guilhermino Augusto, in O Instituto (1822), pp.  23

sábado, 20 de agosto de 2011

Poesia Dramatica


Mas a arte dramatica achava-se ja muito decahida do seu primitivo explendor, quando Antiocho Epiphanes introduziu na Grecia os jogos dos gladiadores, que faziam ha longos tempos as delícias dos Romanos. Desde esse momento o povo atheniense affez-se áquellas scenas de matança, regosijou-se com os ais dos moribundos, com o sangue que tingia o circo, e a poesia dramatica morreu para sempre na Grecia.

Alexandre Braga, in O Instituto (1852), pp. 29

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Tibet



A Soledade


De quanto cobre o sol nada appeteço,
Ao mundo inteiro cousa alguma peço.

Lamartine, 1ª Meditação Poética, in O Instituto (1852) (trad. de F.)

terça-feira, 16 de agosto de 2011



Sentado na bicicleta, os dois pés no chão, o rapaz conversa a ternura de palavras doces para a rapariga imobilizada pela emoção de o ouvir. Estão no portão do pequeno muro que delimita a casa que os pais dela construíram na terra herdada pelos avós; falam os dois, baixinho, quase escondidos pelas árvores pequenas que, do lado de dentro, acompanham o muro. A pele escurecida de ambos atrai-os um ao outro, o brilho dos olhos dela, a inocência do seu cabelo solto sobre os ombros e a ligeireza das suas roupas; ele, de calções caídos na cintura até ao joelho, o cabelo picado de gel, e a camisola preta de cavas que realça e melhora o corpo do seu trabalho na empresa de pequenas construções do pai. Nada mais acontece naquele momento senão as palavras que pouco importam diante dos sentimentos que se trocam; nem os vizinhos a disfarçarem mal que os estão a ver, nem os carros estupidamente excessivos dos emigrantes, nem o sol doentio do Verão. Importa-lhes apenas estarem juntos, todas essas preocupações só haveriam se o desejo não as superasse. Continuam a conversa da noite anterior, começada quase inesperadamente por entre a multidão que dançava e acompanhava a banda regional nos festejos da padroeira local. Embora vivessem perto um do outro, nunca houvera um impulso para estarem juntos; e nessa noite, enquanto as famílias de ambos se divertiam na reunião dos parentes que vieram do estrangeiro, e se copiavam grosseiramente êxitos musicais de outras décadas, eles encontraram-se a meio caminho entre o balcão das bebidas e o carro das pipocas: e um despertar ígneo se apossou do peito dele, do estômago dela, que os obriga a estarem juntos hoje. A paixão que os atrai durará os primeiros anos da sua relação; depois estarão juntos mais alguns anos por comodismo e habituação, até porque as suas famílias os obrigam; trair-se-ão mutuamente na busca de sensações novas; ela acabará por engravidar, e o casamento virá compulsivo. A filha deles, no portão da casa, estará, numa tarde quente de Agosto, a sorrir de prazer para um jovem a quem ela agrade.

domingo, 14 de agosto de 2011

O Poeta


Os hymnos tão suaves, tão cheios d'uncção, tão intimos, que os psalmistas das cathedraes de Hespanha repetiam com enthusiasmo, eram como o respirar tranquillo do somno da madrugada que vem depois do arquejar violento, do gemer doloroso de pesadello nocturno.

Alexandre Herculano, Eurico, o presbytero (1847), pp. 18

É um estado de convalescença. Há uma guerra dentro de mim, como se fosse a cura de uma doença, mas não daquelas de que os médicos se dizem especialistas. Esta doença não tem cura porque não é uma doença. Estou na sua convalescença, mas sei que voltará, sei que em breve estarei de novo sob o efeito da sua febre, com os delírios próprios desse estado doentio. Imaginar-me-ei igual aos outros, e julgarei que sou possível como alguém, iludir-me-ei com a fantasia de um futuro vulgar, ao lado de alguém que me ame com o amor com que as pessoas normalizadas se costumam amar. Mas depois tenho de tratar novamente dessa doença, amainá-la, reduzi-la para não se alastrar a níveis que ponham em risco o que de mim há ainda são. Sei que dentro de pouco tempo haverá outro rosto, que o parasita que habita em mim (e que sou eu próprio) acordará outra vez, e será necessário aplicar-lhe novo tratamento para a guardar até à vez seguinte. Estou em convalescença de ti.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Extasis



E é pois assim absorto, delirante,
Que eu vejo alguem, imagem vaporosa,
- Cabellos negros, faces côr de rosa -
Passar como uma sombra vacillante.

É pois assim, assim é que eu a vejo,
É assim que eu lhe quero e que eu a adoro;
E sei então que vivo porque choro
Beijando a sombra, que mais nada beijo!

João Maria de Santiago-Prezado, Primeiros versos (1902)

Um beijo



Estaria eu apaixonado por Miss Ellen? Mas Miss Ellen não tinha metade da minha idade, Miss Ellen era uma criança ainda! Procurei dominar-me, analizar-me, compreender-me, - e tive, então, pavor de mim mesmo. Não. Não havia dúvida. A velhice chegára, com o mais terrivel dos seus sintomas. O que me perturbava em Miss Ellen não era a beleza, era a mocidade; não era a mulher, era a criança. Eu tinha tantas vezes observado nos outros essa primeira manifestação de decadência, que não me foi difícil surpreendê-la em mim próprio. A predilecção amorosa pelas raparigas muito novas, essa «voluptuosidade da candura», que marca no homem o princípio da velhice, aparecera em mim, súbitamente, doentiamente, com o prometido beijo de Miss Ellen.

Júlio Dantas, Ao ouvido de Mme. X (1915)

A Fonte do Amor



Cheguei a velhinho, ainda lá bebia...
Outros chegavam p'ra beber;
E eu, sempre a beber também, dizia:
É mentira! é mentira! Esta agoa faz soffrer!


Afonso Lopes Vieira, Para quê? (1897)