quinta-feira, 30 de junho de 2011

Uma pessoa que conhecemos e que nos venha falar acerca de uma outra que não conhecemos: devemos acreditar acriticamente no que a primeira nos diz sobre a terceira? Usamos este exemplo a propósito de "O pensamento português contemporâneo. 1890-2010" de Miguel Real. O livro, tal como a sua primeira parte, a "Introdução à cultura portuguesa", só vale por, numa tendência pouco levada a sério na intelectualidade portuguesa, reunir nomes que de outro modo nunca apareceriam juntos; mas tudo o que intermedeie o cabeçalho que introduz um autor até ao do outro autor - é a opinião do autor do livro. A opinião do leitor deve ser feita, como defende Eudoro de Sousa (que Miguel Real conhece mas a quem não quer dar importância...), a partir da leitura directa dos originais. O autor de um livro explica-se a si mesmo no seu livro, e cada leitor explica-se na leitura que faz do livro. Porque um livro que não seja literário não deixa de ser arte.

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Inesperado, o fenómeno natural apareceu e arrasou o pouco que havia; tempos se passaram até que alguns curiosos voltassem àquela terra maldita e começassem a procurar pelo que ficara jazente sob a massa petrificada e adormecida de destruição. E os antigos edifícios, um pouco mais desfeitos do que estavam, voltaram à luz.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Everything Invaded

A ternura, o desejo e nós, o medo, estávamos definitivamente soltos. O mundo existia em cada um dos momentos. As palavras estavam dispostas sobre os objectos que nomeavam. Ele e ela, ao olharem-se, atravessados por tudo, poderiam ter dito a palavra amor. Era uma palavra que estava diante dos seus rostos, misturada com os seus olhares. Mas, por isso, era uma palavra que já não poderiam saber porque, a partir desse momento, nós atravessámo-los para sempre. E nem ele, nem ela sabem o significado mais profundo daquilo que os invade. Os homens não sabem o significado daquilo que os invade. A terra sabe. O sol sabe. O tempo sabe. Nós sabemos.

José Luís Peixoto, Antídoto

segunda-feira, 23 de novembro de 2009




Tu, florista, dizes que tens de todas as flores à venda. Sempre que o disseres estarás a mentir: porque nunca estarás tu à venda. Há coisas que não têm valor, e a primeira é o teu amor: que preço dar por algo perante o qual o ouro não passa de latão? Dá-me uma rosa, imaginarei que é a tua, e os seus espinhos serão os teus nãos.



sábado, 21 de novembro de 2009

The underground


[Para ser acompanhado do Maldoror dos Mão Morta]



 Dizem que existe um lugar onde tudo é diferente, o que aqui é bom, lá é mau, e da mesma forma que aqui não há nada mau, lá também não há nada bom. É o oposto deste mundo, e lá tu não gostas de mim, lá eu sou um pobre louco amarrado a uma cama e a ser sedado pelo médico de cada vez que tu, aqui, me olhas e sorris e iluminas tudo.

Vieram dizer-me que já estava em condições de te visitar no céu que habita em ti. Valeu a pena? Vê: já sei amar sem esperar nada em troca.

E ela já sabe o que vai acontecer entre nós? Está de acordo com o que eu vou sofrer por ela? Para que tudo suceda da forma mais natural possível, a ela basta-lhe por agora saber de quem vai gostar: o resto terá as suas consequências daí. Por não ser de ti que vai gostar é que melhor podes compensar esse teu passado; mas se soubesse de antemão o que te vai provocar, a tua experiência não seria a mesma, porque ela iria evitar ao máximo que outra pessoa sofresse por ela.

O nosso mundo é uma gota no oceano Universo; para nós ele é um oceano do qual somos apenas uma gota.

És linda. Tudo em ti é harmonia, pensar em ti preenche-me o ser quase até explodir. Tenho a certeza de que, se não existisse "ela" primeiro, seria por ti que, hoje, o meu coração viveria.

Atrais-me, despertas em mim um cocktail de hormonas que não me deixa em paz enquanto não as libertar; mas não gosto de ti. Serves para eu ainda me sentir vivo, és um corpo que eu descubro com luxúria. Mas logo que chegamos onde queremos, tenho de ficar uns tempos sem te ver. Depois a gente fala.

Não, espera, pára, espera, pára com isso: não chames sentimentos despropositados. Que amor, que paixão?! É melhor não falarmos mais nada. Vamos fazer isto como se fôssemos dois animais.

Gostaste?, foi bom? Olha, vai-me buscar uma cerveja.

Não és igual a ela, nem parecida com ela, apenas os teus olhos me atraem. Desta vez, só quero usar a tua cara.

Só estou a falar contigo porque gosto do que vejo. A noite não vai acabar sem que as minhas mãos tenham passado por aí. Não és como ela, e por isso para mim não és nada.

Faz lá o que tens a fazer, mas não te ponhas à frente da televisão, quero ver o jogo (há tanto tempo que não a vejo). Nunca permitiria que a pessoa que amo descesse ao ponto de fazer o que me estás a fazer. Não pares.

Nessa noite estava a sair dum bar obscuro acompanhado por dois corpos femininos embriagados, quando num carro que passava do outro lado da rua, olhando-me fixamente nos olhos, ao fim de tanto tempo, a vi.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

(...) a antiguidade classica, a verdadeira e unica civilização para chegar á qual o mundo foi obscuro desde a sua creação, e depois da qual tornou a escurecer! Tudo antes d'isso foi pre-historico, tudo depois d'isso foi proto-historico!

Fernando Pessoa

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Quando Darwin explicou que o homem descendia do macaco, muitos entenderam ter-se alcançado a prova derradeira de que Deus não existia, porque tal descoberta punha em questão todas as palavras da Bíblia. Mas o que os homens não perceberam foi que nada era mais apropriado, ao acabarmos de subir o primeiro degrau da escada eterna da evolução, e que culminou com a aquisição da racionalidade, nada era mais adequado aos nossos deveres neste planeta do que um fato-macaco: tínhamos que trabalhar...

(a Bíblia, embora emitida das esferas superiores da espiritualidade, foi recebida por homens diferentes de nós, hoje, e toda a mensagem foi condicionada por isso: foi dita da forma mais compreensível, e foi recebida da melhor forma possível. E não veio o homem do macaco; o homem veio coabitar com os animais que floresciam na Natureza, e Deus adaptou para nós o invólucro mais adequado aos nossos espíritos)

domingo, 25 de outubro de 2009

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Duas dezenas de minutos à tua espera e continuas sem existir. De todos os lados: das ruas que fogem desta esquina para o infinito da noite; dos elementos móveis, mecânicos ou orgânicos, que trocam rápida e individualmente de lugar no espaço; na ininterrupção de tudo - há o dizer-me constante da tua ausência. Não estás ausente por partires, nem por ainda não teres chegado: estás ausente porque és ausente. O mundo inteiro dobra incessante a linha que os homens sonham à volta do sol, continuará a fazê-lo por mais algumas vezes, e todas essas vezes em que eu vou ter noção disso (presente ou latente) tu não serás. Houve um tempo na minha vida em que sabia da tua existência nos outros, mas era uma coisa tão própria dos outros que te via como um adjectivo deles; os outros eram os outros, e nos outros havias tu. Depois descobri a noção de que eu era, para os outros, uma parte dos outros de que eles não faziam parte. A ingenuidade com que a verdade era recebida por mim destruiu-se a partir do momento em que me desenvolvi pessoa. Evoluí de ser apenas as imagens que passavam no filme do mundo para ser um volume, algo que ocupa espaço e tempo e consome recursos. O desenho que fugia do espelho e que era eu era também carne e osso como todos os outros corpos viventes. O que eu fazia também eles podiam fazer, e eu também podia fazer o que eles faziam. Mas as coisas não funcionam assim... Os outros fazem o que podem fazer porque tu estás neles, com eles, partilha-los. Sou igual a eles em tudo, excepto que tenho uma leveza mais pesada: não estares na minha vida é fisicamente um alívio da massa interna e externa, mas é um pesar constante no coração. Mesmo nos outros em que não reside ainda a consciência de existirem - aí te encontro, à distância a que posso, e aí te vejo vigorar em toda a tua amplitude; comigo é que tens essa atitude de afastamento, melhor, de desaparecimento, toda a vez que me procuro aproximar de ti. Porque houve um tempo, houve vários tempos, houve muitas voltas à volta do sol em que eu andei às voltas em torno de mim mesmo, e quando devia ter-te nutrido em mim sequei as tuas raízes no meu coração. Agora colho o deserto, ainda que rodeado da fertilidade com que te fazes presente nos outros. Fui pródigo de ti, e agora estou naquele momento em que o filho, na parábola, acordou no meio da miséria e, antes de partir para a casa do pai, e antes mesmo de decidir partir, se examinou a si mesmo e foi o seu próprio juíz no julgamento em que reviveu todos os seus excessos. E nesses excessos descubro que não foi apenas contigo que arranquei as folhas para passar sobre elas, e que arranquei os ramos para me sentar sobre eles, e que desfiz as raízes porque destoavam no meio do prazer da aparência. Mas neste momento, tenho que tratar da remissão para contigo.


Havia muita gente, mas não havia ninguém. Todas as pessoas que amontoavam o espaço eram roupa num corpo vazio, viviam para ter o corpo que pudesse vestir a roupa, e isso era o importante. Inadmissível alguém passar sem pelo menos mais do que um saco de compras, bem grande, bem cheio. Inaceitável uma mulher que não trouxesse roupa visivelmente cara e nova, um rosto carregado de produtos de Paris, ou o cabelo tão artificial como só os coiffeurs conseguem fazer. E no meio deste mundo à parte de todo o resto do mundo, neste mundo em que mesmo o mais materialista dos homens se sentiria um profeta de qualquer religião metafísica, por entre esta floresta de consumo, passas tu, com esse corpo esguio como os traços rápidos de um estilista. Tu, que, apesar de compores este quadro abominável onde não existe Deus, não existe a simpatia de um sorriso fraterno, onde a caridade é algo em que simplesmente não se pensa, apesar de tudo, és linda. Podes ter o cérebro cravado com o verbo "comprar", mas os teus olhos, a curvatura do teu rosto, a leveza das tuas pernas - fazem-me ter pena de saber que és produto desta mentalidade. E por isso mesmo, infelizmente, para além de não haver uma gota do teu sangue que diga humildade, talvez também a simples percepção, mesmo que seja, da excelência das formas do teu barro ainda te afunde mais na ilusão de superioridade que a beleza frugal e fugaz proporciona. Podias ser belíssima, se esses olhos carregados de um azul celeste tivessem de facto um bocadinho de céu: mas são azuis como as irrelevantes notas de €20, e os teus lábios rosados só sorriem perante o talão de compra.

Os Sonhos





Eu estudava os quadros ambientes, com justa estranheza. Sempre cuidadoso, Aniceto veio ao encontro de nossa perplexidade.
- Os Espíritos encarnados - disse -, tão logo se realize a consolidação dos laços físicos, ficam submetidos a imperiosas leis dominantes na Crosta. Entre eles e nós existe um espesso véu. É a muralha das vibrações. Sem a obliteração temporária da memória, não se renovaria a oportunidade. Se o nosso campo lhes fôra francamente aberto, olvidariam as obrigações imediatas, estimariam o parasitismo, prejudicando a própria evolução. Eis porque raramente estão lúcidos ao nosso lado. Na maioria dos casos, junto de nós, permanecem vacilantes, enfraquecidos... Vejam aquela jovem senhora encarnada, em conversa com a vovózinha que trabalha conosco, em "Nosso Lar".
Assim dizendo, Aniceto indicou um grupo mais próximo.
A anciã, de olhos brilhantes e gestos decididos, abraçava-se à neta, lânguida e palidíssima.
- Nieta - exclamava a velhinha, em tom firme -, não dês tamanha importância aos obstáculos. Esquece os que te perseguem, a ninguém odeies. Conserva tua paz espiritual, acima de tudo. Tua mãe não te pode valer agora, mas crê na continuidade de nossa vida. A vovó não te esquecerá. A calúnia, Nieta, é uma serpente que ameaça o coração; entretanto, se a encararmos de frente, fortes e tranqüilas, veremos, a breve tempo, que a serpente não tem vida própria. É víbora de brinquedo a se quebrar como vidro, pelo impulso de nossas mãos. E, vencido o espantalho, em lugar da serpente, teremos conosco a flor da virtude. Não temas, querida! Não percas a sagrada oportunidade de testemunhar a compreensão de Jesus!...
A jovem senhora não respondia, mas seus olhos semilúcidos estavam cheios de pranto. Demonstrava no gesto vago uma consolação divina, recostada ao seio carinhoso da devotada velhinha.
- Esta irmã se lembrará de tudo, ao despertar no corpo físico? - perguntei, intrigado, ao nosso orientador.
Aniceto sorriu e esclareceu:
- Sendo a avó superior e ela inferior, e, examinando ainda a condição dos planos de vida em que ambas se encontram, a jovem encarnada está sob o domínio espiritual da benfeitora. Entre ambas, portanto, há uma corrente magnética recíproca, salientando-se, porém, que a vovó amiga detém uma ascendência positiva. A neta não vê o ambiente com precisão, nem ouve as palavras integralmente. Não esqueçamos que o desprendimento no sono físico vulgar é fragmentário e que a visão e a audição, peculiares ao encarnado, se encontram nele também restritas. O fenômeno, pois, é mais de união espiritual que de percepções sensoriais, própriamente ditas. A jovem está recebendo consolações positivas, de Espírito a Espírito. Não se recordará, despertando nos véus materiais mais grosseiros, de todas as minúcias deste venturoso encontro que acabamos de presenciar. Acordará, porém, encorajada e bem disposta, sem poder identificar a causa da restauração do bom ânimo. Dirá que sonhou com a avó num lugar onde havia muita gente, sem recordar as minudências do fato, acrescentando que viu, no sonho, uma cobra ameaçadora, que logo se transformou em serpente de vidro, quebrando-se ao impulso de suas mãos, para transformar-se em perfumosa flor, da qual ainda conserva a lembrança agradável do aroma. Afirmará que soberano conforto lhe invadiu a alma e, no fundo, compreenderá a mensagem consoladora que lhe foi concedida.

André Luiz, Os Mensageiros (psic. Chico Xavier)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Paro um momento, e reparo no pouco de ti que, de casa, consigo ver. Cá fora, sentada na bancada de madeira, velha como tudo, olhas o horizonte que se vai diluindo no branco que te escorre pelos olhos. Tens o corpo estragado pelo trabalho contínuo de tanto anos esforçados; a boca, onde os dentes foram morrendo com a vida, treme senil; as mãos fatigadas, irremediavelmente doentes, com as veias muito escuras a quererem rasgar a pele baça e quebrada. De que valeu, nos alvores da existência, quando o corpo é incapaz de se dominar, ter-te dito que eras a mulher da minha vida? Foi para isto que nos demos um ao outro? O gosto de sentir um corpo tenro e perfeito; de descobrir um cantinho dos lábios onde o beijo saiba melhor; de pousar a mão trémula no teu joelho, sabendo que te arrepia os lugares mais profundos do ser; tudo isso é cinza dispersa pelo vento, se se chega às nossas idades e nada há de mais substancial que faça ainda persistir o amor. Satisfizemo-nos, mas não nos dedicámos um ao outro, e assim agora somos a miséria viva de um castelo que se tivesse posto sobre a areia do deserto. É por isso que tenho vergonha de estar ao pé de ti: o estado deplorável em que estás por causa dos erros que estavam reservados para mim, mas que eu tive a desumanidade de te arrastar para eles, roubei-te à paz que te aguardava no equilíbrio de uma vida simples e trouxe-te presa pelos turbilhões do meu destino. Se eu soubesse que iríamos acabar numa casa podre e em ruínas como nós estamos, se soubesse o entusiasmo pueril de uns momentos da vida que rapidamente se perderam no nevoeiro do passado, se soubesse que a felicidade que te prometi era a felicidade que te estava a tirar - nunca teria chegado ao pé de ti, naquele dia chuvoso há tantos anos, e não te teria dito "gosto de ti".
Quando soube que em ti se dava o milagre da vida, a alegria foi imensa, preencheu-me o ser, trouxe-me novas razões para viver. Passávamos os serões a projectar futuros, e as nossas bocas eram ternuras e carinhos que ansiávamos por lhe poder dar. Desde sempre o encarámos como a expressão humana do nosso amor, e tudo o que ele fosse no tempo que lhe fora dado seria sempre o reflexo do que era o nosso amor, sem as ilusões do comodismo que nos enganassem. As nossas vidas eram a vida dele, fazíamos os nossos horários, geríamos os nossos compromissos em função dele. Os nossos tempos livres eram para que ele fosse feliz. Não o carregávamos de mimos nem lhe cumpríamos as vontades todas, mas o sorriso na cara dele era a nossa satisfação. Demos-lhe o melhor que tínhamos. Cresceu com a sensibilidade e a inteligência da mãe, e soube aproveitar os fracos momentos em que o pai descia à realidade. Aprendeu comigo a desconstruir as ideias pré-estabelecidas, mas aprendeu contigo a criar as suas próprias ideias sem a influência de ninguém. Comigo foi diferente; contigo foi superior. Às vezes, quando o íamos buscar à escola, enquanto ele vinha ter connosco, o meu braço em volta dos teus ombros era mais intenso, e o meu sangue era um arco-íris de cores maravilhosas. Agora, não tenho sequer força para estar de pé. Diante de nós, o corpo do nosso filho a apodrecer na morte. O teu rosto desfigurado por um pranto indescritível - não há palavras. Não pode haver pensamento, sentimento, a Razão que faz de nós bichos pensantes, tudo isso morreu com ele. A sua morte é o morrer de uma parte de nós, mas fica a lucidez crua e permanente para sentirmos sempre a ausência do que se perde. O meu coração é uma bola de mágoa que asfixia o peito, e do imo do ser efervesce uma náusea, como se também as entranhas agonizassem com o peso da dor.