segunda-feira, 26 de março de 2012

Senhor dos Passos, Aveiro (25-03-2012)



A perversão de todos os valores cristãos, bem diante da anuência ignorante e apática dos fiéis: a sigla SPQR...

sexta-feira, 23 de março de 2012



Agora vai, com o passo trémulo e apressado, os olhos postos no caminho sem o verem, as mãos nos bolsos do casaco. Passa pelas ruas e pelas pessoas mas, para si, caminha sozinho no contorno dos obstáculos. Vai, consigo e com os seus, numa conversa só entre eles que, por vezes, escapa na boca, como se o corpo quisesse também fazer parte do grupo. Afinal, é lá que se encontram...

Noctúrnia





Não sei quanto ainda falta, nem a sinto sair, apenas vejo que sai, e enquanto vai saindo, com a cabeça tombada na parede. No fim, abotoo as calças e saio da casa de banho, vou procurando não tombar muito e não chocar muito com os outros, olho em volta e encontro as pessoas com quem estou. Não ouço nada, a música estridente não me deixa ouvir nada, junto-me a eles e volto a dançar. Dançar: mexer o corpo consoante o dita a música, agitar a cabeça, o tronco, as pernas, os ombros ao ritmo das batidas, e quando parece que cospe num ritmo mais acentuado - aguardar pelo retomar das batidas regulares, como numa apoteose delirante. Não sei quanto bebi, sei que já saiu tudo menos o álcool que entope os ouvidos, amolece o corpo e mexe as minhas mãos e a voz, porque me vejo a fazer e a dizer o que, sóbrio, seria impossível. O sóbrio parece que, longe, trancado no ínfimo da consciência, vai assistindo ao que se passa, como se outrem tomasse agora conta do corpo e dançasse com esta realidade tudo o que gostaria de ter feito com a sua própria. Está tudo distante, é uma pena que logo hoje, que eu estou assim, esteja perto de ti; é pena que julgues que eu sou assim, porque só hoje eu sou assim. Hoje, que te conheci. Hoje, que vejo que és muito boa de carácter e lindíssima de corpo. Sóbrio, não deixaria as minhas mãos tocarem, acidentalmente, as tuas; não falaria contigo por entre os fios dos teus cabelos; sóbrio, implodiria tudo o que, em tão pouco tempo e em circunstâncias tão anómalas, sinto por ti. Mas sóbrio, tenho a certeza que te iria achar tão bonita como agora, no meio de tanta gente e de tanto ruído. Sei que vais ser sempre alguém diferente. Se te voltar a ver. Gostei muito de te descobrir, de saber que existes. Aparece mais vezes na minha vida; ou, se não tiveres de aparecer mais vezes, que te apareça na tua vida alguém que te veja o que eu gostava de te ver.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

   
   
    [...] I have too long
Loved pretty women with a poet's feeling.
    And when a boy, in day dream and in song,
Have knelt me down and worshipp'd them: alas!
They never thank'd me for't - but let that pass.

Fitz-Greene Halleck, Fanny (1819), pp. 5

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012



É quase noite, mas ainda tenho tempo de ir à biblioteca, quero sempre lá ir, por muito tarde que seja. Passo o corredor, subo as escadas, a porta ao lado da grande sala de banquetes é a da biblioteca. Um espaço quase sempre fechado, da altura de dois andares, imenso como uma avenida, as paredes transformadas em estantes sem um único espaço livre; multicolores pelas lombadas, possantes pela espessura dos volumes. Agora, não me importo se chega a noite e tenho de ficar aqui mais tempo do que devo. Dirijo o escadote rolante até ao primeiro canto, e vou percorrendo, com agrado, as listas dos títulos, dos autores, às vezes misturando palavras e inventando obras que a fusão de dois génios inigualáveis pudesse concretizar. A Divina Antígona; O Corvo de Abrantes; Ralph Waldo Heidegger; Marco Túlio de Assis; Sócrates, o rei sol; Padre António Garrett. Da impossibilidade inicial, da quase recusa automática pela estranheza da associação de alguns, acorre logo toda a potencialidade hipotética dessa eventual realidade, e começo, em ideias soltas, a unir versos distantes, a completar frases de um mundo com palavras de outro universo, vejo a Virgínia Wolf a impedir o suicídio da Florbela para lhe antecipar o seu; o Almada a por as mãos á cabeça para não as por no pescoço do Dantas; o Reis chocado com o humor sarcástico do Campos; o Marquês a passear com o Inigo em Loiola. Mas interrompo subitamente estes pensamentos quando dou conta do patrão a olhar-me para baixo da saia e a perguntar quanto tempo demoro para limpar o pó dos livros.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

terça-feira, 31 de janeiro de 2012



A casa não tinha portas. Passávamos pelas divisões através do que deveria ser o lugar de uma porta, até o chão mudava, mas nada fechava um lado do outro. Só em lugares que pedissem alguma privacidade se corria uns reposteiros toscos, pesados e velhos. A casa já era assim desde os tempos da aldeia, quando era pouca gente e todos se conheciam; depois que a vila se tornara cidade, parecia perigoso persistir nessa tradição. Eu gostava de correr pelos corredores infinitos que levavam da cozinha à sala, ambas nos extremos da casa. Ninguém me impedia, porque afinal não havia perigo de me aleijar nas esquinas dos móveis que eram quase nenhuns. Só um quadro ou uma pequena estante cortavam por breves momentos a nudez das paredes. E eu corria sempre, sem saber o que me levava a não ficar quieto, nem à hora da refeição, com a mesa cheia de narizes a bicar na sopa; eu tinha que me mexer. Os meus pais, sempre tão correctos e disciplinadores, tornavam-se, quando visitávamos os tios da minha mãe, indiferentes a tudo o que eu fizesse. À excepção de quando, num almoço, perguntei em que fechadura se usava uma chave que encontrei perdida no sótão.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

 
 
Até que chegou o dia e foi internada. Fui com ela à maternidade, Flora entrou por ali dentro como rainha. Escolheu o quarto com certa dificuldade de escolha. Porque havia o ruído da rua e as traseiras dos prédios com os canos saídos como varizes. E os do meio eram mais lúgubres. Ficou num que tinha sol e um pouco de tráfego para ouvir. Eu ia lá todos os dias mas ela não aprovava:
- Venha só no dia próprio - disse-me.
O dia chegou, eu fui. Estive lá até à noite e havia o jornal da minha obrigação. O pai de Flora era o meu director, era viúvo, apareceu também, mas tudo afinal estava ainda atrasado. O pai de Flora saiu, eu fiquei ainda, até que saí também. Ia despedir-me e dar-lhe um beijo mais íntimo. Flora disse-me:
- Seja casto.

Vergílio Ferreira, Até ao fim

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012



A criança vai enumerando todas as coisas que passam por si do outro lado do vidro do carro. Pessoas, árvores, as cores de uns, o tamanho de outros, as formas, as quantidades. Há sempre qualquer coisa nova que marca toda a atenção inocente da sua infância. De vez em quando pergunta à mãe se também viu, ou qual o nome do que não conhece, ou porque é que aquela senhora é assim, ou aquele cão tem o pêlo curtinho, o carro amarelo, a ambulância a fazer barulho ao longe ou o semáforo a brincar com as cores. A mãe dá respostas curtas, quase mudas, querendo que o filho se cale, como ela e o marido estão a fazer. Já sabe que vai ser um dia mau, porque vão à reunião anual da família dele. É-lhe difícil estar com aquela gente, o sogro com olhares perversos, a não disfarçar o que lhe vai na imaginação; a sogra a acusá-la de ser o que o velho está a pensar. A cunhada a dar exemplos hipócritas de mulher ideal para criar um lar, cuidar da casa e dos filhos, tudo na perfeição e com eterna alegria - pedaço de cristal puro e fino que, passado pouco tempo, não resiste ao uso intensivo a que não está habituado e acaba por se quebrar, vertendo o líquido fétido que guardava. É-lhe difícil ver os sobrinhos a maltratarem o seu pequenino, mas se diz alguma coisa: são brincadeiras de criança, é sem maldade. Incomoda-a o cunhado, a passar-lhe as mãos abaixo da cintura, a dizer indecências, disfarçadas com risos ruidosos de um humor de fraco gosto. É-lhe também insuportável o marido a acusá-la de não se esforçar para se dar bem com a família - mas qual família?

sábado, 7 de janeiro de 2012

Futur proche



Cheguei a casa. Na sala, ocupando o sofá, o teu corpo estendido na brandura de um sono calmo. O rosto virado para o ombro direito, com os cabelos soltos para trás do pescoço. As linhas agressivas do nariz a desaguarem na boca desprotegida. Os braços, lançados para distâncias próximas, levantam a camisola do pijama que, ondeada pelos ossos do ventre, insinua a planura delicada que ladeia o vulcão do umbigo. O peito, revelado por três botões abertos, move-se na mecânica serena do ar que te renova o corpo, e o volume sóbrio dos seios arranca a descida vertiginosa pela cintura apertada. Antes do elástico das calças, a cor fogosa da peça interior estica-se pouco acima das tuas cores íntimas, e as pernas, após a breve curva dos joelhos, expandem-se no assombro da linearidade vítrea dos pés frágeis. Deixo a mala no chão, o casaco em cima dela; descalço um pé com o outro e alivio as calças. Junto-me a ti; estou em casa.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

  
  
Que alegria há em estar sozinho? Mas estragar por isso a vida de outra pessoa?

sábado, 24 de dezembro de 2011

Esboço

 
 
Feliz Natal.
Esta prenda é muito simples
Mas dou-ta com o melhor dos meus sentimentos.
És muito linda.
Gostava de passar mais tempo contigo
Para que a nossa amizade se torne
Mais forte.
O brilho dos teus olhos diz-me
Que no espaço da tua alma
Há um pequeno lugar que guardas imune
À contaminação sulfúrica das outras pessoas.
Quero ajudar-te a defender
Esse pedaço de paraíso
Que guardas como um tesouro
E quero também mostrar-te
As ruínas de um lugar semelhante
Que já existiu em mim
Mas que foi destruído
Porque ninguém o protegeu
Como eu quero proteger o teu.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011



Ninguém a ouve. As pessoas passam rápidas por ela, fechadas nas suas vidas, não olham para ela mas sabem que ela está ali porque se afastam para não chocarem com ela. É como se a voz dela, elevada à rouquidão de um grito que lhe magoa o peito, fosse apenas imaginação dela, porque todos passam como se não houvesse qualquer ruído. Ela chama-os, um a um, suplica por ajuda, apela a um gesto humanitário - mas ninguém lhe atende. O que se torna da humanidade quando ninguém se sensibiliza com uma pessoa que sofre? Às vezes agarra a manga de alguém, que a enxota como a um estorvo, também se põe no caminho e procura impedir os passos de outra pessoa, que, confrontada diante dela, dá uma volta maior no passeio para a contornar. A todos pergunta pelo seu filho que desapareceu. Pergunta se o viram, se sabem onde ele está, se pelo menos ele está vivo, se já casou, como são os netinhos, mas o filho que não volta, que não a visita, se alguém a pode ajudar: e ninguém a acompanha na sua dor. Como se não soubessem o que é perder o contacto com um filho - certamente alguma dessas velhas que fecham a cara quando a vêem sabe o que ela sente. Mas não partilham com ela, ficam revoltadas, dentro dos seus cantinhos, por ela expor aquilo que elas lutam por esquecer. Mas ela não esquece. Ela não quer pensar no seu filho como sendo uma memória do passado, o seu menino querido, a luz da sua vida, a razão de ela ter nascido para todo este sofrimento. Ela tem de o encontrar, algures a vida os conduzirá um ao outro, para que ela possa dar-lhe todo o amor que não deu. Talvez um dia, mas não nesta vida: porque essa mulher não teve filhos.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011



Dou por mim a rir-me, com os outros, de mim. A acompanhá-los no escárnio que os leva a tratarem-me como a um animal sem importância, rafeiro sujo e descuidado a viver das sobras dos contentores do lixo. Arranhado e com falhas de pêlo, manco de uma pata e olhar encovado. A rir-me com eles de tudo o que sou. Há momentos em que não me rio, que é quando me batem pontapés nas nádegas, palmadas na nuca, joelhadas nas coxas - aí não me rio, porque me dói, mas é quando eles se riem mais, e eu acelero o meu riso para me aproximar do deles e acompanhá-los. Preciso de estar ao lado deles, e de ser vexado assim. Mas porquê? Porque é que não consigo encher-me dessa força que eles esbanjam, e fazer-me igual a eles, porque é que não sinto o respeito que lhes dou sem pensar em mim? Depois de algumas bofetadas vão-se embora, e eu fico no meu lugar, o rodapé da barbearia. Sento-me no chão, que não é meu, eu é que sou dele, eu sou como o papel amarrotado que deixam cair com raiva depois de irem ao multibanco, sou a beata escurecida pelo fumo e pelos pés que sobre ela passam. Sou como a mancha azeda que o cão da viúva deixou a escorrer da árvore. A erva espalmada pela bola com que a criança brinca. O vazio deixado nas folhas pelas larvas. O risco preto de sujidade nas frinchas da janela. Os restos que vão ficando suspensos na sarjeta da berma da estrada. Sou a sombra dos bocados de pele escondidos pelas rugas de sofrimento que os velhos arrastam nos passos doridos. A mente apagada dos drogados que indicam o estacionamento. A decadência do bêbedo que contorna, bambo, o caminho para o balcão. Uma faca que se descobre junto ao cinto, numa rua deserta, diante de um rosto assustado. Um marido a gritar com as mãos à sua mulher. Um carro cujo dono ficou a pé a ver dois estranhos fugirem com ele. De tudo o que há à minha volta, só vejo a miséria, porque miséria é a minha vida, é o que tenho aprendido desde que me conheço. Miséria inútil, feita inútil pelos outros - os mesmos, talvez, a quem eu terei feito o mesmo noutra hora. Mas nessa hora, terá havido algum minuto de sol? Terá havido algum segundo de felicidade que possa bastar a que, de entre tudo o que sou, me ames?

domingo, 27 de novembro de 2011



Consegues ainda fechar a porta do quarto antes de eu lá chegar. Rodas rápida a chave, e continuas a gritar, agora do lado de dentro, para eu desaparecer de vez da tua vida. Esta nossa discussão não começou agora, pela razão insignificante que te fez levantar da mesa; já andamos assim há muito tempo, desde que vivemos os dois. A nossa vida tem sido um desentendimento constante, adormecido por vezes mas elevado à sua plenitude em ocasiões como esta, agora. Ouço o estilhaço do espelho da cómoda, a queda das gavetas no chão, os frascos de perfume na parede, tecidos a serem rasgados (da cama?, do roupeiro?), ao compasso da fúria que te arranha a garganta e se transforma num grunhido raivoso de destruição. Tento ainda abrir a porta, forçá-la para rebentar a fechadura, mas não consigo, se calhar também não quero; acho que já não quero nada disto. Mas agora é tarde para voltar a ser o que era antes de ti. Não me consigo conformar com a desarmonia que há entre nós, mas tenho de me resignar a estar contigo, não apenas por ti, mas por mim também. Soube bem ver um corpo como o teu arrebatado pelo meu prazer; soube bem mostrar-te, como prémio da minha vitória, aos outros caçadores; soube bem ter o exclusivo dos teus olhos. Tudo isso, porém, trazia uma contrapartida: para poder usufruir da tua beleza, tive de aceitar a instabilidade do teu humor. Ninguém é perfeito,  e se tu eras portadora de um corpo sem defeito, o defeito tinha de estar em algum lado... Com o tempo, a aparência efémera das belas formas foi decaindo, e com ela o teu feitio: ficaste ainda pior. Agora, sem a atracção que te possa dar ainda algum valor, vives ressentida e presa à velhice inexorável - a tua e a minha; porque aquilo que te garantia superioridade sobre todos os outros era também o que vias quando me olhavas; e o meu estado actual lembra-te cruamente que também tu estás assim. Mas agora não te posso deixar. O que seria de ti, e de mim? Se eu desistisse agora de tentar pôr esta parede abaixo, e saísse pela outra porta, a da rua, não haveria ninguém que te apoiasse como eu, tornavas-te objecto de desvios desumanos; e a solidão apressava ainda mais um fim que está próximo mas que buscarias por ti. E se te deixasse, eu viveria até ao meu fim a dor de ter abandonado a mulher que, nesta vida, fui permitido amar.